Traduzione di
FERNANDO PINTO DO AMARAL
MARIA CARLOS LOUREIRO
JOSÉ EDUARDO REIS

Não seja exposto o segredo que arde na urna do coração

4.
Eis a renegada e a indestrutível

Estou a atravessar a minha dor 
à tua frente: sou aquela
que passa pelo fogo,
a flagelada e no entanto sempre
amante, a programada para transitar
por aquilo que não conta, pela sua própria dor
quando todo o calor do meu coração regressa
ao meu coração e põe entre as chagas
doces lâminas de clarividência,
a distância cósmica das almas esquecidas nos corpos
como pequenos campos de luz.

5.
Tornas-te menos solúvel do que a pedra

Não precisava de os deter
enquanto em lagos de luz passavam
e só diziam
bom dia maria
e maria rodeada de rosas não falava
estava
quieta em cima de uma pedra
como uma cordeira ou
o pentágono de uma estrela
- tanto fazia, desde que fosse
suavemente.

7.
Martírio breve de Maria ou discurso do coração sobre si mesmo

Ela lapidada pelo seu próprio amor – sólido e branco
como um seixo – diz
amo-te
como uma palavra
dita à beira da morte.

8.
Onde não é negada a perda

Os anjos estão sós sobre a terra são pedras
transportadas pelos vermes
para a boca dos dois encontrados
juntos na cabana
mas sós
como sós estão os anjos
mas já sem dor – já 
sem esperar, libertos da espera.

2007

Vita Felix

Imaginávamos navios
como os estigmas do mar – imaginávamos navios
como pés de flores marinhas e cumes
do mar na terra – imaginávamos o rumor da ilha, o mar que batia
como uma fonte
alta e a terra estava impregnada e doce
e sem dor – e certamente este imaginar
era voltar
ao paraíso pela estrada aberta
pelas palavras e os corpos
moviam-se ténues e desumanos como se o mundo estivesse ainda por vir.
Quando tu falavas eu via a ilha
onde os mortos iluminam
corpos feitos de ramos e de ervas,
onde estão sentados com o sol no rosto na pequena construção do cais
farrapos de luz que completamos.
Quando tu falavas eu via a ilha
com o amarelo fustigante das giestas, o atracar
silencioso dos barcos, a praceta de cimento, os cubos brancos
onde estão sentadas paralelas as nossas figuras
com olhos carregados de olhar humano
e os afectos deixados nas casas 
como uma foz esquecida.
Somos uma evidência do vento
um canavial de carne lapidada
um flutuar sonoro de renascidos
que perdem
lágrimas
pelo olhar interior
porque o vento deve continuar vento
e as cinzas cinzas até ao fim do mundo
porque este deixar que aconteça
é mais do que amor, este dizer
que se vai.

2009

A ravina de Babi-Yar

(29-30 de Setembro de 1941)

De repente queria
viver viver
na infecção humana. Como?
escapar se ela fica aqui – mas voltei à superfície
apagada de mim
apagada a propriedade específica humana
do riso. Eles
ardiam obrigadas
a ver os recém-nascidos tornarem-se cinza (a própria
musculatura e a do outro, a saliva e o respirar
dos outros) e o cheiro salgado dos cabelos revoltos
lançado para o fogo. Olha para o archote da sua testa sobre a qual
poisavas a outra metade dos teus beijos.
E assim não conseguiram arrancar o corpo do meu irmão dos braços dela
de tanto que o apertava e continuo a pensar
de que abraço virá a minha salvação.

Um mar de pessoas e de dor.
Também as árvores estendidas na terra pela dor.
No cinzento fosfórico das pedras há duas 
como manequins comprometidos.
Não foram 
as balas 
dos soldados bêbedos que mataram
ha ieled sheli, foi o peso
do meu abraço sob o peso dos corpos.
Depois outra vez os disparos. E os dentes de ouro foram arrancados 
da boca dos mortos.
O olhar da minha mãe
Era assustador – debaixo dela havia um mar de corpos sem alma - eu
calei-me
como lama escura. O que podia emergir do fundo da ravina se não esta
irrefreável 
culpa.

2005

Ha ieled sheli: o meu menino
Entre 29 e 30 de Setembro de 1941, 33.771 judeus de todas as idades provenientes de Kiev e arredores foram despidos, lançados ao chão sobre outros mortos e metralhados pelos nazis e colaboracionistas ucranianos como numa cadeia de montagem na ravina de Babi-Yar. Em 1943 foram necessários 327 prisioneiros e seis semanas para se conseguir queimar os corpos desenterrados, as provas.

Cantiga de criança

O ar, o primeiro 
que respiraste, era o ar de Março e da manhã. O sol
ardia quieto na sua onda
através da janela grande porque grande
era o coração
e desinteressado
como o sol que espalha a sua luz sobre a água do rio
e navega límpido
em direcção ao mar
onde o espaço é atravessado
por gritos de gaivota e nada
mais. É bom manter
o ar novo no rosto de quem nasce, com mãos
humanas manter
sagrado o sagrado, tornar o ar mais claro onde toca
o coração, para que o coração seja simples e leve
como um balão
e como outras coisas que sobem da terra para o céu.
É belo dizer farei o que puder
e ainda mais, como todas as mulheres na terra: agarra, vida
da minha vida
a tua inocente liberdade.

2008

Clara circunstância

A doçura clamorosa das clavículas, a percussão interrompida
dos freios musculares, as válvulas
que finalmente a abandonaram 
sobre a terra, o ângulo humilde que a cabeça faz 
para esconder o sorriso 
sobre a coluna crua do corpo 
diz: esperei por ti durante toda a vida
vi a tua vida
nos meus sonhos e toda ela, noite
após noite, se dissipava com o perdão. Em alguns instantes 
quando o céu cheio de espanto coincidia 
com a esfera das árvores agitadas pela lua 
cheia, eu acordava
por causa dos teus sonhos
e levantava o teu nome como uma bandeira
que me saía do peito e me tornava 
invisível: de mim 
via-se apenas o teu nome. Sabia 
que deveríamos acabar juntos 
o que quer que acontecesse. Agora 
aqui estou eu, pronta para acabar 
no teu fim, para inspirar o último suspiro
da tua boca
e soprá-lo através da boca
que depois de ti ninguém beijou,
para o céu.

2008

Esta provável pessoa
(tradução de António Fournier)

I

Há um estado perene de vigília dentro do muro habitado
e nada mais.
A luz vinha
dali como de um segundo
mundo: a beleza
humilhada da miséria e atrás:
um domingo feliz
no estaleiro campestre repleto de intactas forças morais.

Éramos excelentes.
A paisagem era apoiada
pelo canto do muro
tornado
perfeito pelo sol. Um voo
arregaçava-se como um linho branco
sobre um sistema de órgãos vitais, inclinava
à lentidão da graça entre os poucos ossos
porque o corpo perde-se pouco a pouco
e no seu lugar começa a graça.

II

Ele permanece voltado para o pôr-do-sol como uma oferta depois da batalha
e o seu corpo é uma foice. A cabeça
superior para as estrelas
inclinada
contra um seixo
com o rosto obscurecido que lembra
a manobra nocturna de um exército
que atravessa a ordem omnipotente (corpos
da uva crucificada
paralelos às cancelas, fumo e rajadas
bruscas e cheias
de gritos
na fronteira
o clamoroso eco da terra). Aqueles
que estão em pés
são
aspirados em direcção das nuvens como estrelas do mar
assim a prata
das couraças está perto
da prata do céu.

Por tudo isto
sinto uma dor no peito como a empunhadura de um punhal
e de pé
sobre a colina procuro desaparecer simplesmente,
desaparecer em perfeito silêncio ou pelo menos como um ninho
que cai
com um pequeno baque na enormidade do bosque
porque a dor no meu peito é molhada e mentirosa e peca-
minosa, diz que outrora eu confiava
no direito a não ser deixada.

Vi os sacos com claras formas humanas
eu deitei-me de joelhos aos pés deles e vi
que o plástico preto do seu rosto
estava alaranjado devido ao anidrido.

III

Portanto sem os objectos não haverá dor mas
o sorriso
a resina fóssil do sorriso
a nulidade que não receia
o clamoroso eco da terra.

Se o cálice do sorriso
sobreviver à luz da manhã
levaremos a luz aos ossos como esponsal secreto
e na parte vazia e clara da nossa sombra
consumir-se-á como incenso o cheiro das armas
e dos ferros cirúrgicos, uma pequena fileira de desaparecidos
sairá para a luz atrás de nós
como o sol sobre os prados de março
como um povo de ar sobre traves
e os corpos que foram
queimados como combustíveis e sepultados
com pássaros salgados e farinhas de espelta
com um cone de gordura sobre as perucas e com ditais
de ouro, todos os corpos belíssimos que foram
formados por uma mulher
sairão para o dia inteiramente
e formarão esteiras,
uma baba de imortalidade.

3 de Junho de 2008
De Sulla bocca di tutti (2010)

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